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08/06/2020

Desafios do acolhimento em tempos de pandemia

Desafios do acolhimento em tempos de pandemia

Há alguns anos venho trabalhando em projetos diaconais. Desde 2019, atuo como gestor na Casa Lar São Sebastião, o que é um grande desafio, principalmente quando se trata do acolhimento institucional de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Não obstante, nenhum desafio mexeu tanto e em tão pouco tempo quanto a pandemia. Este nome, que tem tanta força e que tanto assusta, começa aos poucos fazer parte do cotidiano do planeta Terra. As crianças que vivem na Casa Lar São Sebastião, apesar do estranhamento inicial, começam a adaptar-se com os e as profissionais e suas máscaras de proteção, utensílio indispensável, principalmente para nós que temos contato diário com um grupo de crianças e adolescentes em isolamento.

Na Casa Lar São Sebastião, encontram-se acolhidas atualmente nove crianças e uma adolescente, com idades entre 10 meses e 14 anos. Os motivos dos acolhimentos são distintos, muitas histórias se repetem, mas neste espaço elas encontram acolhimento, cuidado e a oportunidade de vivenciar a infância e adolescência de maneira saudável.

Neste sentido, passamos a pensar alternativas para ocupar saudavelmente o tempo, que antes era preenchido, durante a semana, por diversas atividades recreativas e pedagógicas. Além da escola, as crianças frequentavam aulas de capoeira, futsal, dança, violão, bateria e reforço escolar. Grande parte delas recebia, ainda, a visita de seus familiares, para que mesmo durante o acolhimento o vínculo com a família de origem permanecesse em algum nível, salvo exceções, quando a família de origem não tem autorização judicial para realizar visitas, ou quando não há uma organização da mesma para que este contato seja estabelecido.

Desta forma, foi explicado para os moradores e moradoras da casa o momento que estamos vivenciando, de maneira pedagógica e lúdica, evitando causar pânico, ou gerar uma situação ainda mais complexa, assim cada um e cada uma foi incentivado, incentivada a confeccionar instruções de como proceder neste período, desde higiene até a troca de carinhos e os tantos abraços que diariamente faziam parte do nosso trabalho, os quais foram substituídos por palavras e o gesto de “coração” com as mãos.

Além disso, as atividades que antes eram realizadas seguindo o cronograma escolar e de atividades de cada um e cada uma, precisou ser repensada, para as crianças em idade de alfabetização, organizou-se a casa para que as letras do alfabeto, os números e as vogais, fizessem parte do dia a dia.
Com o grupo de educadores e educadoras, e também em conjunto com a equipe técnica, foram pensados alguns temas a serem trabalhados, utilizando os materiais e recursos que dispomos na instituição. Desta forma, a casa foi redecorada com releituras de obras de arte de artistas brasileiros,

A hora do conto passou a reunir no “solzinho” de outono, histórias que fazem viajar para fora da instituição. As histórias e estórias são pensadas de maneira a trabalhar ludicamente, valores, sentimentos, expressões e, de igual modo, conectar com a realidade.

A loucura do momento, a ansiedade do isolamento, a falta da escola e do convívio com amigos e familiares se trabalha com meditação, e no exercício coletivo de crianças adolescentes e adultos em conectar-se.

E desta forma, vamos seguindo, aprendendo a cada dia. As atividades escolares específicas chegam agora de várias escolas.

Cada dia é um novo desafio. No entanto, em espaços onde se preza pelo diálogo, pelo cuidado e pela missão de transformar vidas, uma equipe de trabalho se torna uma família, com “tios e tias”, são muitos os desafios, mas maior ainda é a vontade de vencê-los, principalmente porque sabe-se que, o isolamento para estas crianças e adolescentes é experienciado em uma dimensão muito maior, o fato de ser retirado do convívio familiar e ser “isolado, isolada” em uma instituição/casa já causa muitas confusões, questionamentos, frustrações e em muitos casos traumas, pensando nisso e com vistas tornar este período o menos danoso e traumático para as crianças e adolescentes é que, diariamente nos inventamos e reinventamos enquanto equipe, enquanto instituição, tendo sobretudo a diaconia como desafio em tempos de Covid-19.

Por Tiago Ademir Graube
Diretor da Casa Lar São Sebastião

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